quarta-feira, 28 de outubro de 2009

ESTUDO SOBRE SOFRIMENTO NO TRABALHO REVELA ALTO ÍNDICE DE SUICÍDIOS ENTRE BANCÁRIOS

O trabalho pode levar ao suicídio? Muitos suicidas na Ásia e na Europa usam como justificativa a pressão e o excesso para o fato de acabar com a própria vida. A prova disso, hoje, está nos 25 suicídios, só nos últimos 20 meses, ocorridos entre os funcionários da ex-estatal e hoje líder de mercado France Telecom. As cartas de despedida revelam o que vivem os funcionários da maior empresa de telecomunicações da França: "Eu me suicido por causa do meu trabalho na France Telecom. É a única causa.", escreveu em sua carta de despedida um engenheiro de 48 anos, casado e pai de três filhos.

Outra funcionária, de 32 anos, escreveu ao pai, pouco antes de se jogar da janela do escritório: "O meu chefe não sabe, obviamente, mas serei a 23ª funcionária a se suicidar. Não aceito a nova reorganização do serviço. Vou mudar de chefe e, para passar por aquilo que eu vou passar, prefiro morrer. Deixo no escritório a bolsa com as chaves e o celular. Levo comigo a minha carta de doadora de órgãos, nunca se sabe. Não gostaria que você recebesse uma mensagem desse gênero, mas estou mais do que perdida. Quero-lhe bem, papai".

A IHU On-Line conversou com o professor Marcelo Finazzi, que pesquisa sofrimento no trabalho e estudos organizacionais críticos sobre o tema. Ele revela que entre os bancários, a incidência de patologias e suicídios tem um grande índice. "A relevância do setor bancário na economia nacional e a sofisticação dos métodos gerenciais dos bancos, os quais passam por reengenharias permanentes nos últimos 20 anos, constituiu-se em valiosa oportunidade para o estudo de como mudanças organizacionais bruscas podem interferir na subjetividade do trabalhador. O suicídio, que talvez seja o ato que melhor traduza o ápice do sofrimento", apontou ele, que é bacharel e mestre em administração pela Universidade de Brasília.

Confira abaixo a entrevista

IHU On-Line - O que o levou a pesquisar o suicídio motivado pelas condições de trabalho?
Marcelo Finazzi - Durante o início das pesquisas sobre sofrimento no trabalho, tomei contato com relevantes estudos sobre a incidência das mais variadas patologias entre bancários, inclusive algumas descrições gerais sobre uma onda de suicídios na década de 1990.

Paralelamente, soube que a categoria era uma das quais possuía o melhor pacote de benefícios sociais. Essa aparente ambiguidade me intrigou e me senti instigado a aprofundar os estudos. A relevância do setor bancário na economia nacional e a sofisticação dos métodos gerenciais dos bancos, os quais passam por reengenharias permanentes nos últimos 20 anos, constituiu-se em valiosa oportunidade para o estudo de como mudanças organizacionais bruscas podem interferir na subjetividade do trabalhador.

O suicídio, que talvez seja o ato que melhor traduza o ápice do sofrimento, apresentou-se naturalmente como o objeto para a compreensão das relações de trabalho contemporâneas. Para minha surpresa, após aprofundar as leituras, constatei que são raros os estudos que correlacionam organização do trabalho e suicídio.

IHU On-Line - Segundo seus estudos, a ideação suicida [vontade de tirar a própria vida] está associada às pressões no ambiente de trabalho. Que pressões são essas?
Marcelo Finazzi - Na verdade, o suicídio é um fenômeno altamente complexo que depende de inúmeras variáveis. O que fiz foi avaliar se fatores adversos relacionados à organização do trabalho poderia ser um fator - dentre muitos outros - capaz de contribuir para que o trabalhador desenvolvesse pensamentos suicidas e, em casos extremos, vir a cometê-lo.

É importante salientar que a imensa maioria dos trabalhadores, quando submetidos ao sofrimento e se vêem impossibilitados de superá-lo, costuma desenvolver reações menos radicais, como, por exemplo, transtornos musculoesqueléticos, mentais, estomacais, nervosos, cardíacos, reumáticos e dermatológicos.

E quais são essas causas de sofrimento que contribuem para que os sujeitos desenvolvam tais reações? Resumidamente, pressões infindáveis para o cumprimento de metas de produtividade, poucos trabalhadores para muitas tarefas, discrepância entre o trabalho prescrito e o real, condições ergonômicas inadequadas, trabalho fragmentado, além de questões outras que passam ao largo dos objetivos formais da organização, como lideranças narcisistas destrutivas - que são os responsáveis pelas violências do assédio e que agem em nome de seus interesses pessoais, mesmo que ao custo do terror e, paradoxalmente, do decréscimo da produtividade -, redes de poder, ciúmes, inveja, autoritarismo e perseguições gratuitas.

Não podemos esquecer que o medo do desemprego ou de retaliações também abre uma brecha para o sofrimento, pois a capacidade de mobilização dos trabalhadores diminui e, assim, estes acabam aceitando condições laborais mais penosas. Por fim, cabe ressaltar que as reengenharias organizacionais também costumam resultar em enorme sofrimento, pois quase sempre geram demissões, mais trabalho para os que mantêm o emprego e, não raro, desorganização completa da vida pessoal do sujeito.

IHU On-Line - O senhor afirma que, na nova organização do trabalho, o bancário é convidado a ser dono da própria carreira em nome do lucro. Como isso se manifesta?
Marcelo Finazzi - O estudo demonstrou que qualquer pessoa considerada normal está sujeita a passar pelo mesmo processo de perda do equilíbrio que os entrevistados passaram: trabalho vazio ou com pouco significado, cobranças intermináveis por resultados ou, de outra forma, ausência de trabalho, sujeitando o trabalhador à ociosidade, desqualificações sucessivas pelo pouco trabalho feito ou pela impossibilidade de cumprir o excesso de tarefas, relações sociais superficiais e chefias autoritárias. Por mais equilibrada que seja a pessoa, caso não se encontre soluções práticas para livrar-se das causas do sofrimento, seja por meio de uma remoção para outro setor na empresa, seja por meio da troca de emprego ou aposentadoria, a possibilidade de adoecimento é enorme. Alguns somatizam doenças físicas, outros desenvolvem transtornos mentais. De forma extrema, alguns entendem que a vida não merece ser vivida, optando pela radicalização por meio do suicídio.

A perda do equilíbrio se completa pela constatação de que o discurso reiteradamente veiculado nos informativos da organização, impregnados de mensagens de amor à empresa e empregados felizes, contrasta violentamente com a percepção de realidade do trabalhador.

O mundo prático não é feito de afabilidades e, muito menos, da empresa da solicitude, que ampara paternalmente o empregado. O trabalhador, na nova organização do trabalho, é o dono de sua carreira, o único responsável pelos infortúnios que for acometido - afinal, se não estiver satisfeito, que se demita, pois há muitos lá fora querendo a vaga. Quando os entrevistados precisaram das empresas, não encontraram nenhum apoio efetivo.

Paradoxalmente, entretanto, quando ingressaram foram submetidos a intenso processo de assimilação da cultura organizacional como se, a partir de então, fizessem parte de um clube de predestinados. No início, acreditam incondicionalmente no discurso, entregando-se de corpo e alma aos arbítrios das empresas.

O choque com outra realidade - aquela que, além de não ser divulgada, é cuidadosamente encoberta - comuta o sentimento inicial de pertencimento em enganação. A dor moral do assédio se acentua, dessa forma, com a percepção literal de que algo está errado, que os discursos de alegria e felicidade irrestritas talvez estejam apenas no imaginário daqueles que os idealizaram.

IHU On-Line - Na sua avaliação, e a partir dos seus estudos, qual é o fator mais determinante que leva o trabalhador à desestabilização e à perda da vontade de viver?
Marcelo Finazzi - Sem dúvida, a falta de reconhecimento pelo esforço despendido para a realização das tarefas. O trabalho é poderosa fonte de identidade e pertencimento social: o que os sujeitos esperam, no mínimo, é a valorização do que está sendo feito em prol dos objetivos organizacionais. O problema é que, em algumas ocasiões, o sujeito se dedica durante 10, 20, 30 anos, desenvolve laços afetivos com a empresa e, de repente, é convidado a se retirar ou é excluído compulsoriamente, como se toda a dedicação incondicional não tivesse valor algum.

IHU On-Line - É possível traçar características comuns entre aqueles que tomaram essa atitude radical?
Marcelo Finazzi - Sim. Manifesto-me com base nos resultados do meu estudo. Primeiramente, os sujeitos buscaram, de todas as formas, soluções concretas para o alívio da dor. Com o tempo, porém, as oportunidades foram sendo eliminadas, uma a uma, restando poucas opções. Ao mesmo tempo, o processo de assédio - ou outra circunstância causadora do sofrimento - se intensificava na mesma proporção em que procuravam apoio institucional das empresas, que se mostravam incapazes de apresentar qualquer opção prática para resolver os conflitos. Aquela possibilidade antes tão remota, que é a vontade de morrer, começa a ganhar consistência e, na ausência de algo melhor, é a oportunidade que se apresenta para sair do "buraco negro" em que se encontram, dia após dia mais profundo. O apoio médico e psicoterápico adequado, aliado a ações efetivas das organizações para protegê-los dos assédios que vivenciavam, talvez fossem suficientes para que resgatassem a auto-estima e recobrassem a vontade de viver.

O que eles precisavam era de um ambiente de trabalho salutar para o desempenho de suas funções com respeito e satisfação. Não era o simples afastamento para tratamento médico.

A psiquiatrização do problema transferiu para a seara médica problemas da organização do trabalho e de administração deficiente de pessoal. Era mais fácil medicá-los com antidepressivos e ansiolíticos do que corrigir estruturas gerenciais anacrônicas ou punir gerentes autoritários.

O que eles não queriam era ficar em casa, recebendo os salários como esmola. É bem provável que o melhor tratamento era que continuassem trabalhando, com as mentes ocupadas e a sensação das tarefas bem desempenhadas. A morte foi a solução para se livrarem dos constrangimentos diários. É importante salientar que, antes das situações adversas do trabalho, suas condições psicológicas eram normais.

Tinham problemas externos, como qualquer pessoa, mas os administravam sem maiores transtornos. Esse é o ponto crucial das histórias deles: o processo que desencadeou a ideação suicida, culminando na tentativa de morte, relacionou-se com as dificuldades relacionadas com o trabalho.

Tinham insônia ou acordavam inexplicavelmente no meio da madrugada com pensamentos fixos no trabalho. As crises de choro se tornavam compulsivas pelo simples fato de deixarem suas casas em direção ao escritório.

Durante o expediente, as crises também eram frequentes, perdurando noite a dentro. Os domingos eram de grande angústia, justamente porque haveria mais uma semana insuportável para ser vencida.

IHU On-Line - Há casos de trabalhadores que deixaram registros?
Marcelo Finazzi - Sim, há. Temos o conhecimento de bilhetes e contatos telefônicos de despedida previamente às tentativas de suicídio. Cabe salientar, porém, que não há uma regra e, ao contrário do que o senso comum imagina, muitos suicidas preferem não manifestar formalmente os motivos do ato. Na minha pesquisa, por exemplo, os pesquisados que tentaram o suicídio - mas sobreviveram - não deixaram bilhetes de despedida ou qualquer aviso prévio: para que alardear os motivos de um ato cuidadosamente tramado no vazio da solidão? Alguma palavra seria capaz de explicar com precisão o que aquele ato, por si só, representaria? Buscaram ajuda e não encontraram. Não haveria razões para se justificarem perante aqueles que não se importaram com eles, para que os algozes nutrissem compaixão ao menos depois da morte. Nenhum deles parecia demonstrar o sentimento de autopiedade típico de pessoas que simulam a morte.

Eles queriam apenas morrer e ponto final. Um dado importante apareceu na pesquisa: todos manifestaram a vontade de morrer mediante acidente automobilístico e, inclusive, chegaram a planejá-lo. Quantos acidentes, na verdade, não se tratam de morte facilitada?

IHU On-Line - O senhor considera que os seus estudos permitem um paralelo com o que está acontecendo na France Telecom? É possível identificar causas comuns?
Marcelo Finazzi - O grande problema das organizações contemporâneas, incluindo a France Telecom, é que as reestruturações são conduzidas na base da força e da coação, sem diálogo. É óbvio que mudanças são imprescindíveis: curiosamente, entretanto, pensam-se nos resultados financeiros, no lucro dos acionistas, mas as necessidades das pessoas são negligenciadas - justamente aquelas que cinicamente são chamadas de colaboradores ou consideradas o maior ativo. Na minha pesquisa, ficou bastante nítido que a onda de suicídios de bancários, na década de 1990, tem características distintas dos suicídios dos anos 2000. Na primeira fase, os suicídios - quando puderam ser vinculados ao contexto do trabalho - relacionaram-se com as transformações radicais do setor em intervalo muito curto de tempo. Sucessivos planos de desligamento, com demissões contínuas, em bancos públicos e privados, criaram pânico na categoria. Por exemplo, apenas no segundo semestre de 1996, foram cortadas quase 150 mil vagas no setor.

Os suicidas da primeira fase são aqueles que sucumbem ao terror psicológico de ter que ostentar felicidade, mesmo sabendo que, no dia seguinte, poderiam figurar na próxima lista de demitidos ou de serem removidos compulsoriamente para outros cargos ou cidades. São aqueles que efetivamente foram vítimas das reestruturações, pois perdiam os cargos, os empregos e, sobretudo, a esperança. É o suicídio decorrente da incredulidade frente ao radicalismo da situação, no curto prazo, da ruptura de relações trabalhistas estáveis, do rompimento dos vínculos afetivos para um estado de caos permanente. Os suicídios da segunda fase, ou seja, a partir dos anos 2000, externalizam as consequências negativas, no longo prazo, das mudanças estruturais introduzidas com as reengenharias nos métodos de produção. O trabalho se torna fardo pesado, pois, o fator custo restringe a contratação de novos trabalhadores, sobrecarregando os pouco existentes.

Os que ficam são compelidos a trabalhar mal, na medida em que são obrigados a desempenhar múltiplas tarefas, com velocidade crescente, sujeitando-se a erros. Além disso, os assédios se disseminam como práticas comuns para fazer com que os trabalhadores produzam cada vez mais ou, de outra forma, como mecanismo de pressão para eliminar os indesejáveis. O medo é utilizado como estratégia de intimidação, pois, o contingente de reserva, que são os desempregados, pressiona aqueles que estão empregados a se sujeitarem a condições laborais precárias. É assim que o sofrimento do trabalhador gradativamente aumenta, conduzindo-o ao desenvolvimento das mais variadas patologias e transtornos mentais, à medida que os mecanismos de defesa empregados para aliviar o sofrimento vão sendo um a um eliminados. O adoecimento e, de forma extrema, o suicídio, tornam-se fenômenos endêmicos.

IHU On-Line - É possível afirmar que o cotidiano do trabalhador bancário é de sofrimento?
Marcelo Finazzi - Seriam precisos estudos bastante aprofundados para fazer-se tal generalização. Conheço muitos bancários que são orgulhosos por pertencerem à categoria, manifestam satisfação no trabalho desempenhado e se julgam realizados profissionalmente.

Muitos pesquisadores estão se debruçando para que as organizações façam do trabalho - essa fonte poderosa para emancipação das pessoas, tanto do ponto de vista financeiro quanto social - indutor de prazer, não de sofrimento. Infelizmente, entretanto, muitas empresas têm empregado o sofrimento como mecanismo para o aumento de produtividade ou redução de custos, adotando a truculência dessa lógica como instrumento gerencial. Um exemplo: explorar psicologicamente o medo de desemprego ou de retaliações para que o sujeito trabalhe além da jornada regulamentar ou cumpra as metas de produção - as quais, não raro, são atingidas com base em artifícios escusos ou mediante aumento potencial de falha humana. Falha essa, aliás, que o trabalhador também será penalizado caso vier a cometê-la.

Outros administradores, que possuem fragilidade de caráter ou personalidade perversa, apropriam-se do poder que estão investidos para perseguir gratuitamente os desafetos. O que posso afirmar é que, para um número crescente de pessoas, lotadas em empresas dos mais diversos setores econômicos, o trabalho tem sido um fardo que somente suportam porque precisam sobreviver.

IHU On-Line - Os sindicatos dos bancários têm colocado em pauta esse tema?
Marcelo Finazzi - O suicídio, de forma específica, somente esteve em pauta nos anos 1990, por conta de uma onda de suicídios na categoria. Houve audiências no Congresso Nacional para tratar do assunto, inclusive, com ampla repercussão dos casos na mídia. Posteriormente, o tema caiu no esquecimento, mas perdurou no imaginário dos bancários: é interessante que, em conversas com trabalhadores mais antigos, todos conhecem alguma morte. Por outro lado, tenho observado, por meio da leitura dos informativos editados pelos sindicatos, que tais entidades estão empenhadas em denunciar práticas gerenciais degradantes e alertar a categoria sobre os malefícios dos assédios, além de disponibilizar assessoria especializada em segurança e saúde no trabalho.

IHU On-Line - O senhor tem conhecimento de evidências de altas taxas de suicídios em outras categorias de trabalhadores?
Marcelo Finazzi - No Brasil, encontrei somente um único estudo sobre o suicídio no contexto do trabalho. No Japão, por exemplo, o assunto é muito pesquisado, e há evidências significativas, publicadas em respeitados periódicos científicos, de que os métodos de gestão empregados por lá, os quais inspiraram (e ainda inspiram) as reestruturações produtivas mundo afora, têm sido diretamente associados a ocorrências de desordens mentais e suicídio de trabalhadores japoneses. Principais causas: falências de empresas, programas de demissão e trabalho sob condições severas. Cabe ressaltar, porém, que muitos pesquisadores brasileiros têm estudado os efeitos deletérios da organização do trabalho sob a subjetividade do trabalhador, evidenciando práticas gerenciais perniciosas nos mais variados formatos organizacionais.

Destaco, por exemplo, aqueles que se dedicam à psicodinâmica do trabalho, à sociologia clínica, aos estudos organizacionais críticos e à saúde do trabalhador. De forma prática, estudar o suicídio é tarefa árdua. Estudar o suicídio, no contexto do trabalho, é ainda mais difícil: as bases de dados oficiais não são muito confiáveis; os dados com relativo nível de confiabilidade restringem-se aos anos recentes; há sérios problemas de subnotificação de suicídios; familiares e amigos têm vergonha ou repulsa de falar sobre o assunto - que é tabu em nossa sociedade; em muitas empresas, o trabalhador é demitido ao primeiro sinal de distúrbios físico ou mental, e as terceirizações diluem o tamanho das categorias profissionais. Por fim, as empresas costumam esconder as ocorrências ou, quando isso não é possível, fazem o possível para minimizá-las, atribuindo os óbitos a problemas pessoais do falecido, distúrbios psiquiátricos ou, em última instância, fazem comparações epidemiológicas absurdamente descabidas entre as taxas de suicídio da empresa e... do país! Categorias de trabalhadores potencialmente sujeitas ao sofrimento são daqueles setores muito competitivos: eu apostaria pesquisar os trabalhadores das empresas de telecomunicações brasileiras, incluindo aqueles que perderam os seus empregos. É possível que os resultados sejam assustadores.


Fonte: Instituto Humanitas Unisinos / Contraf/CUT

CONTRAF-CUT E VIGILANTES VOLTAM AO MPT POR SEGURANÇA NO TRANSPORTE DE VALORES

Crédito: Davi de Souza/O Tempo/AE
Davi de Souza/O Tempo/AE Contraf-CUT e Confederação Nacional dos Trabalhadores Vigilantes (CNTV) protocolam nesta quarta-feira, dia 28, novos documentos na Procuradoria-Geral do Ministério Público do Trabalho (MPT), em Brasília, sobre a falta de segurança no transporte de valores. O procedimento é resultado da reunião promovida no último dia 13 pelo procurador-geral do MPT, Otávio Brito Lopes, que, além dos representantes dos trabalhadores, também contou com a participação da Febraban.

Três grandes problemas preocupam as entidades sindicais: o abastecimento dos caixas eletrônicos feito por vigilantes com o manuseio e a contagem do dinheiro no local, a falta de espaço seguro para o estacionamento dos carros-fortes nas agências e o transporte ilegal de numerário ainda feito por muitos bancários pelo Brasil afora.

"As operações de transporte de valores tem causado mortes, feridos e pessoas traumatizadas. Além da recente portaria da Polícia Federal, outras medidas precisam ser tomadas para proteger a vida dos trabalhadores e melhorar as condições de segurança", afirma o secretário de imprensa da Contraf-CUT e coordenador do Coletivo Nacional de Segurança Bancária, Ademir Wiederkehr.

"Queremos que todo o transporte de numerário seja feito por empresa especializada em segurança e em condições seguras. Mesmo que a legislação determine a utilização de carros-fortes, diversos bancos obrigam seus funcionários a transportar valores, muitas vezes de táxi ou com o carro particular, sem qualquer segurança, aumentando o risco de assaltos", alerta o dirigente sindical.

No próximo dia 9 de novembro, o procurador-geral do MPT realiza nova reunião entre as partes para continuar as negociações.

Fonte: Contraf-CUT





terça-feira, 27 de outubro de 2009

TERMINA GREVE NO BNB EM ALAGOAS, BAHIA, PARAÍBA E PIAUÍ

Os bancários do Banco do Nordeste do Brasil (BNB) realizaram na noite desta segunda-feira, 26, assembleias para deliberar a respeito da proposta específica apresentada pelo banco e da continuidade ou não da greve. Iniciada no dia 24 de setembro, a paralisação dos bancários do BNB completou hoje 33 dias.

Os trabalhadores deliberaram por voltar ao trabalho nesta terça-feira nas bases de Alagoas, Bahia, Paraíba e Piauí, de acordo com informações dos sindicatos recebidas pela Contraf-CUT até as 22h. Enquanto isso, os bancários de Pernambuco e Sergipe decidiram rejeitar a proposta e manter a paralisação. Os funcionários do Maranhão e Rio Grande do Norte resolveram que se submetem à decisão da maioria das bases. Os trabalhadores do Ceará já haviam encerrado a greve.

A proposta foi apresentada pela direção do banco ao Comando Nacional dos Bancários e à Comissão dos Funcionários (CFBNB) em negociação realizada na tarde desta segunda-feira, em Fortaleza.

Pelo acordo, o BNB deve cumprir a Convenção Coletiva da categoria, assinada com a Fenaban. As novidades são o adiantamento da PLR de 20 de março de 2010 correspondente a 1/3 do salário bruto a cada empregado, e o passivo trabalhista, que consiste na retomada das negociações relativas às ações judiciais no prazo de 30 dias, com apresentação de proposta em reunião até dia 26 de novembro.


Fonte: Contraf-CUT







BANCÁRIOS DO BANESE E BNB DE SERGIPE CONTINUAM EM GREVE

Na assembleia desta segunda 26, encerrada por volta das 22h, os bancários do Banese e do Banco do Nordeste do Sergipe rejeitaram as propostas dos bancos e continuam em greve. Só o Estado ainda possui dois bancos no movimento que começou no dia 24 de setembro. Depois de 33 dias de paralisação, eles avaliaram como 'humilhante' o fato de retornar ao trabalho com as propostas oferecidas. Nova assembleia do BNB acontece hoje à tarde, às 16 horas. A do Banese ficou marcada para as 15h.

Entre as ofertas, o BNB acrescentou R$ 500 de abono e o Banese aumentou a reparação do reajuste dos caixas de 10% para 15%, o que é específico para os caixas. Mas a exigência maior dos baneseanos é para que o banco defina uma data para implantação do Plano de Cargos e Salários (PCS) e realização de concurso.

A continuidade da greve passou no BNB por uma diferença de apenas dois votos. Mas no Banese, a maioria dos participantes aprovou a continuidade da greve. "A gente começou essa greve há 33 dias, nesse período o banco não demonstrou respeito aos trabalhadores. Acho covardia a gente voltar sem avanços", protestou um bancário do BNB.

"É necessário fazer a luta política no BNB como no Banese e nos demais bancos. Temos que sair daqui da melhor forma possível. Podemos estar cansados fisicamente, mas houve um acúmulo de forças: 33 dias de greve não é qualquer coisa. O que foi feito este ano foi extraordinário", avaliou José Souza, presidente do Sindicato dos bancários de Sergipe (Seeb/SE).

Antes da assembleia, por volta das 15h30, a diretoria do Sindicato de Sergipe recebeu a visita do deputado Francisco Gualberto, líder do Governo na Assembleia Legislativa, e do presidente do Banese, Saumíneo Nascimento. Houve uma conversa, e José Souza pediu que fosse colocado no papel o conteúdo da conversa.

A resposta voltou quase às 21 horas, no último minuto do prazo de espera dado aos bancários que já estavam impacientes. O presidente do Banese reiterou o que havia sido acordado na audiência do Tribunal Regional do Trabalho - TRT - (Assinatura do acordo complementar das cláusulas que já são praticadas, transporte até o local de trabalho no interior, compensação dos dias de greve 2 por 3), acrescentando os 15% à comissão dos caixas. Quem não é caixa se sentiu excluído.

Durante 16 anos houve um jejum sem greve no Banese. Nos últimos dois anos a categoria aderiu ao movimento. Começou timidamente mas avançou com toda força. Nova audiência no TRT estava marcada para o dia 9 de novembro. Foi antecipada, a pedido do Banese, para o dia 3, quando poderá ser instalado o dissídio coletivo.

Por Edivânia Freire - Seeb/S.
Fonte: Contraf/CUT




DELEGADO CRITICA BANCOS NA QUESTÃO SEGURANÇA

O delegado do Departamento de Investigações sobre o Crime Organizado (Deic) Ruy Ferraz Fontes disse que a prática dos bancos de deixar seguranças e funcionários na área de caixas eletrônicos tem de ser revista. Os bancários reivindicam, há anos, melhorias nas condições de segurança das agências, a começar já pelo setor de autoatendimento.

Fontes expôs sua opinião, para o jornal Agora S.Paulo, após prender membros de uma quadrilha que agia de forma padronizada usando geralmente um revólver calibre 38 e rendendo um segurança ou funcionário do banco que trabalhava na área dos caixas eletrônicos para forçar os seguranças da parte interna da agência a desativar a porta de segurança. Uma das reivindicações históricas dos bancários é que a porta de segurança seja instalada já na entrada do autoatendimento.

Somente essa quadrilha assaltou sete agências em apenas dois meses. "É a mais atuante (do Estado SP), diante do número de ocorrências que produziu", disse Fontes.

Os ladrões normalmente agiam após as 11h, uma hora depois da abertura das agências, sempre vestindo ternos e camisas sociais. Em um dos assaltos, segundo informações do Jornal da Tarde, um dos bandidos agrediu seguranças e uma das gerentes.

Fonte: Contraf/CUT





BANPARÁ ASSINA ACORDO NA PRÓXIMA SEXTA, DIA 30

Na próxima sexta-feira, dia 30 de outubro, às 19h, na sede do Sindicato dos Bancários do Pará e Amapá, será assinado o acordo coletivo do Banpará para o período 2009/2010.

Veja a seguir quais foram nossas conquistas:

- Na PLR, além do modelo da FENABAN (90% do salário + R$ 1.024,00 + 2% do lucro líquido, dividido de forma linear), o Banpará pagará mais 2% do lucro líquido, dividido de forma linear entre os funcionários, o que amplia essa terceira parcela, no Banco, para 4% do lucro líquido, cuja primeira parcela foi paga nesta segunda (26/10);

- 2 tíquetes alimentação extras. Um de R$ 410,00 agora em outubro (pago nesta segunda, 26/10) e outro de R$ 400,00 em março/2010; Fica mantida a 13ª cesta alimentação em novembro, no valor de R$ 289,31.

- Ampliação da licença maternidade para 180 dias;

- Isonomia de tratamento para casais homoafetivos;

- Ampliação do prazo de amamentação para 270 dias;

- Reativação do Comitê de Relações Trabalhistas, onde será tratada inclusive a questão do assédio moral;

- Implantação do novo plano de saúde na vigência do acordo;

- Apresentação do piloto do ponto eletrônico em 180 dias e implantação na vigência do acordo;

- Possibilidade de defesa oral do funcionário no comitê disciplinar;

- Abono integral dos dias parados;

- Não retaliação a qualquer empregado por participar do movimento.


Fonte: Seeb/Pa-Ap.

Edição: AFBEPA.




INAUGURADA A NOVA AGÊNCIA CAPANEMA






Em clima de alegria foi inaugurada ontém, dia 26 a nova agência Capanema do Banpará, com instalações mais adequadas às necessidades de segurança e saúde dos funcionários e clientes.
Parabéns aos colegas funcionários e à direção do banco.



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segunda-feira, 26 de outubro de 2009

PARABÉNS MACILDSON E ALINE!

A foto está no orkut do papai Macildson.
Em seu colo, o amado filhote Ângelo Magno.



O e-mail da Presidenta da AFBEPA, Kátia Furtado, foi enviado dia 25, anunciando a boa nova. Macildson é funcionário do Banpará lotado na ag. Capanema, que hoje está sendo reinaugurada. Depois postaremos notícias e fotos da reinauguração da agência.
Abaixo, a carta da Kátia:



"Nasceu o filho do Macildson, às 20:30h de hoje (25/10/2009), pesando 4kg e medindo 53cm. Nasceu com saúde, graças a Deus! A mãe, Aline, está bem e já amamentou o filhote.
O Macildson está super feliz e me disse agora há pouco que vai tirar os cinco dias de licença paternidade, emendará as folgas a que tem direito e também as férias, tudo para ficar juntinho da mulher amada e do bebê tão querido e esperado.
Amanhã, as diretoras da AFBEPA Cris Quadros, Zenaide Oliveira, o diretor Amaral e eu estaremos em Capanema e, com certeza, faremos uma visita para a família do Macildson, que agora cresceu mais ainda em amor e alegria.

Um forte abraço ao Macildson, à Aline, ao filhote e a todos nós que sentimos a emoção de receber uma nova vida!

Kátia."




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UM POEMA DE DRUMMOND EM HOMENAGEM À VIDA

A LUÍS MAURÍCIO, INFANTE

Acorda, Luis Mauricio. Vou te mostrar o mundo,
se é que não preferes vê-lo de teu reino profundo.

Despertando, Luis Mauricio, não chores mais que um tiquinho.
Se as crianças da América choram em coro, que seria, digamos, do teu vizinho?

Que seria de ti, Luis Mauricio, pranteando mais que o necessário?
Os olhos se inflamam depressa, e do mundo o espetáculo é vário

e pede ser visto e amado. É tão pouco, cinco sentidos.
Pois que sejam lépidos, Luis Mauricio, que sejam novos e comovidos.

E como há tempo para viver, Luis Mauricio, podes gastá-lo à janela
que dá para a "Justicia del Trabajo", onde a imaginosa linha da hera

tenazmente compõe seu desenho, recobrindo o que é feio, formal e triste.
Sucede que chegou a primavera, menino, e o muro já não existe.

Admito que amo nos vegetais a carga de silêncio, Luis Mauricio.
Mas há que tentar o diálogo quando a solidão é vício.

E agora, começa a crescer. Em poucas semanas um homem
Se manifesta na boca, nos rins, na medalhinha do nome.

Já te vejo na proporção da cidade, dessa caminha em que dormes.
Dir-se-ia que só o anão de Harrods, hoje velho, entre garotos enormes,

conserva o disfarce da infância, como, na sua imobilidade,
à esquina de Córdoba e Florida, só aquele velho pendido e sentado,

de luvas e sobretudo, vê passar (é cego) o tempo que não enxergamos,
o tempo irreversível, o tempo estático, espaço vazio entre ramos.

O tempo – que fazer dele? Como adivinhar, Luis Mauricio,
o que cada hora traz em si de plenitude e sacrifício?

Hás de aprender o tempo, Luis Mauricio. E há de ser tua ciência
uma tão íntima conexão de ti mesmo e tua existência,

que ninguém suspeitará nada. E teu primeiro segredo
seja antes de alegria subterrânea que de soturno medo.

Aprenderás muitas leis, Luis Mauricio. Mas se as esqueceres depressa,
Outras mais altas descobrirás, e é então que a vida começa,

e recomeça, e a todo instante é outra: tudo é distinto de tudo,
e anda o silêncio, e fala o nevoento horizonte; e sabe guiar-nos o mundo.

Pois a linguagem planta suas árvores no homem e quer vê-las cobertas
de folhas, de signos, de obscuros sentimentos, e avenidas desertas

são apenas as que vemos sem ver, há pelo menos formigas
atarefadas, e pedras felizes ao sol, e projetos de cantigas

que alguém um dia cantará, Luis Mauricio. Procura deslindar o canto.
Ou antes, não procures. Ele se oferecerá sob forma de pranto

ou de riso.E te acompanhará, Luis Mauricio. E as palavras serão servas
de estranha majestade. É tudo estranho. Medita por, exemplo, as ervas,

enquanto és pequeno e teu instinto, solerte, festivamente se aventura
até o âmago das coisas. A que veio, que pode, quanto dura

essa discreta forma verde, entre formas? E imagina ser pensado,
pela erva que pensas. Imagina um elo, uma afeição surda, um passado

articulando os bichos e suas visões, o mundo e seus problemas;
imagina o rei com suas angústias, o pobre com seus diademas,

imagina uma ordem nova; ainda que uma nova desordem, não será bela?
Imagina tudo: o povo,com sua música; o passarinho, com sua donzela;

o namorado com seu espelho mágico; a namorada, com seu mistério;
a casa, com seu calor próprio; a despedida, com seu rosto sério;

o físico, o viajante, o afiador de facas, o italiano das sortes e seu realejo;
o poeta sempre meio complicado; o perfume nativo das coisas e seu arpejo;

o menino que é teu irmão, e sua estouvada ciência
de olhos líquidos e azuis, feita de maliciosa inocência,

que ora viaja enigmas extraordinários; por tua vez, a pesquisa
há de solicitar-te um dia, mensagem perturbadora na brisa.

É preciso criar de novo, Luis Mauricio. Reinventar nagôs e latinos,
E as mais severas inscrições, e quantos ensinamentos e os modelos mais finos,

de tal maneira a vida nos excede e temos de enfrentá-la com poderosos recursos.
Mas seja humilde tua valentia. Repara que há veludo nos ursos.

Inconformados e prisioneiros, em Palermo, eles procuram o outro lado,
E na sua faminta inquietação, algo se liberta da jaula e seu quadrado.

Detém-te. A grande flor do hipopótamo brota da água – nenúfar!
E dos dejetos do rinoceronte se alimentam os pássaros. E o açúcar

que dás na palma da mão à língua terna do cão adoça todos os animais.
Repara que autênticos, que fiéis a um estatuto sereno, e como são naturais.

É meio-dia, Luís Maurício, hora belíssima entre todas,
pois, unindo e separando os crepúsculos, à sua luz se consumam as bodas

do vivo com o que já viveu ou vai viver, e a seu puríssimo raio
entre repuxos, os “chicos” e as “palomas” confraternizam na “Plaza de Mayo".

Aqui me despeço e tenho por plenamente ensinado o teu ofício,
que de ti mesmo e em púrpura o aprendeste ao nascer, meu netinho Luis Mauricio.

Carlos Drummond de Andrade.



*

domingo, 25 de outubro de 2009

TRABALHADOR NÃO CONSEGUE SE DESLIGAR NEM NO TEMPO LIVRE, APONTA DIEESE

O trabalho acadêmico "Tempos de trabalho, tempos de não trabalho", da cientista social Ana Cláudia Moreira Cardoso, ganhou o prêmio Capes de melhor tese na área de sociologia no ano passado. Ela é supervisora de formação do Dieese e está coordenando a campanha da redução da jornada de trabalho para 40 horas semanais.

A tese foi elaborada a partir de pesquisa realizada entre os trabalhadores na Volks de São Bernardo. "A ideia era ver como o tempo de trabalho influencia o tempo de não trabalho, porque não existe essa separação", comentou.

Quais suas motivações para fazer a pesquisa?

Uma foi profissional, pois desde 1998, com a medida provisória criando o banco de horas, o Dieese retomou a discussão sobre o tempo e a jornada de trabalho. Outra motivação foi pessoal, pois o tempo é algo que a gente vivencia tanto, mas reflete muito pouco sobre ele. É uma contradição, pois a gente não tem tempo de pensar no tempo, na divisão das 24 horas do dia. Tanto que achamos normal trabalhar 11 anos e folgar só um ano, achamos normal trabalhar doente. O tempo, na verdade, é uma construção da sociedade.

A reorganização produtiva não beneficiou o trabalhador?

O discurso da inovação tecnológica e organizacional era o de liberar o trabalhador do tempo do trabalho. Com menos tempo para produzir, o trabalhador teria mais tempo para viver a vida dele. Mas, não foi isso o que aconteceu e o trabalhador percebeu dois lados ruins para ele. Para quem está empregado, a inovação gerou intensificação do trabalho, um trabalho mais intenso, com ritmo mais acelerado, com menos pausas, com mais horas extras. Por outro lado, aumentou o nível do desemprego.

Como os trabalhadores reagem a isso?

Os trabalhadores da linha reclamam da combinação da polivalência com o banco de horas. Com o banco, o trabalhador é chamado quando a demanda é alta. Se não, em função da multitarefa, é sempre colocado numa função em alta. Ele sempre vai estar no momento e na função em alta, nunca vai ter período de calmaria. Mesmo porque as empresas têm sempre menos trabalhadores que o necessário. Com o just in time, houve uma redução da porosidade do tempo. O trabalhador não precisa esperar nada, está tudo ali, e ele não tem tempo para respirar. Isso numa empresa em que o Sindicato está presente e é super atento. Imagine nas empresas que não tem um Sindicato presente!

E para o trabalhador fora da linha?

Acontece o mesmo. Os trabalhadores na ferramentaria, por exemplo, reclamam que têm de fazer todas as funções do setor. Eles também não param, com a agravante que, com a terceirização, as ferramentas chegam com defeito e eles gastam mais tempo com elas.

E as mulheres?

As mulheres da produção não tinham tempo de ir ao banheiro e começaram a criar o hábito de fazer o mesmo nos finais de semana. Com isso, passaram a ter problemas de saúde. Não é só as trabalhadoras da produção. Uma gerente de banco falou a mesma coisa, que durante o dia não conseguia parar de trabalhar para ir ao banheiro. As secretárias também tiveram o tempo intensificado. Hoje, elas trabalham para quatro ou cinco gerentes e não têm tempo de trabalhar e revisar, pois sempre têm outra coisas a fazer. Nas diferentes áreas existe o processo generalizado de intensificação do trabalho. O capital quer que o trabalhador seja produtivo nas 40 horas semanais, na jornada inteira.

Quais as consequências da intensificação do trabalho?

Ela acarreta várias coisas. Primeiro, um processo de adoecimento como gastrite, insônia, pressão alta, depressão. Doenças difíceis de serem consideradas do trabalho. E quando o trabalhador sai da fábrica ele continua a pensar no trabalho por medo de perder o emprego. Fica pensando o que pode fazer para melhorar o desempenho dele. Por isso mesmo, no seu tempo livre, ele vai se qualificar. São trabalhadores com 42, 45 anos que voltam à faculdade. A dificuldade é grande, ele tem família, tem filhos. Na verdade, ele corre atrás do título e não do conhecimento como condições de subir na carreira.

E nas férias?

A maioria não consegue tirar férias no tempo em que querem. Cada vez mais o trabalhador tem dificuldade de tirar o tempo livre para ficar com a família.

Como é a jornada brasileira?

No Brasil, temos uma das maiores jornadas do mundo, e é aqui que se pode fazer o maior número de horas extras. Além disso, o trabalhador gasta um tempo absurdo no transporte e ainda precisa estudar.

E quando o trabalhador se aposenta?

Os aposentados não sabem o que fazer com o tempo livre, pois eles passaram a vida toda sem isso. Eles ficam perdidos. É uma coisa estranha, pois não tiveram o hábito do tempo livre. Alguns voltam a trabalhar, as vezes menos pelo dinheiro mas para ter algo para fazer. Muitos, na aposentadoria, estão super doentes, com a coluna destruída, com problemas cardíacos.

A maioria dos que trabalham diz que seu projeto é se aposentar, mas para daqui a 10, 15 anos. Na verdade, eles não têm projeto de futuro.

O tempo de trabalho, quando é muito grande, toma o tempo todo que o trabalhador não consegue pensar coisa diferente. Ele não tem a perspectiva de fazer algo diferente. Não sabe o que fazer.

E a redução da jornada para 40 horas?

A campanha pela redução da jornada será eterna. As inovações tecnológicas e organizacionais vão continuar e cada vez mais vamos precisar de menos trabalhadores para produzir mais com menos tempo. O que fazer com os desempregados? Mandar para o campo de concentração? A redução da jornada tem de continuar. De acordo com Márcio Pochmann, se todos os trabalhadores ativos do mundo trabalhassem, a jornada seria de três horas diárias. Afinal, ele tem de se apropriar da riqueza que produz.


Fonte: Sindicato dos Metalúrgicos do ABC/ CONTRAF/CUT