terça-feira, 10 de agosto de 2010

E A VIDA O QUE É, DIGA LÁ, MEU IRMÃO...

Abaixo, você lê a emocionada carta de Kátia Furtado, Presidenta da AFBEPA, escrita entre a notícia do assalto e sua visita à Santarém, e a notícia do assalto de Eldorado dos Carajás.


(...)
E a vida o que é, diga lá, meu irmão...

Ela é a batida de um coração, ela é uma doce ilusão...


(...) Há quem fale que a vida da gente é um nada no mundo,

É uma gota, é um tempo, que nem dá um segundo...


Há quem fale que é um divino mistério profundo.

É o sopro do criador numa atitude repleta de amor...


(...) Sempre desejada por mais que esteja errada

Ninguém quer a morte, só saúde e sorte...


(O que é, o que é - trechos/ Gonzaguinha)



O poeta, em palavras, traduz esse desejo da vida que nos impele, que nos eleva, que quase nos intima a ser feliz. E é bastante curioso que inicie este texto, que fala de dor e trauma de assaltos e sequestros, com um chamado à felicidade. É que felicidade é o que sentimos quando alcançamos metas na vida. A meta, por exemplo, de ser funcionário do Banpará, de ingressar na empresa, via concurso público... Quantos de nós estudamos, fizemos planos, torcemos, oramos e, quando aprovados e classificados, acreditamos que nossas vidas, e de nossos familiares, seriam transformadas, melhoradas, estabilizadas. E de certa forma, é assim.

Porém, aos poucos, a realidade impõe sua lógica, e começamos a compreender que em nosso ambiente de trabalho é preciso lutar por dignidade. Como seres humanos que somos, deveria ser natural o respeito à vida. Mas, muitas das vezes, em nosso trabalho, a vida vale muito menos do que o dinheiro, do que o lucro, a vida vale bem pouco. Mas sem a vida, o que nos resta?

E é pensando nestes versos do poeta Gonzaguinha, que medito no valor da vida em uma situação de risco total, quando as vidas, a nossa e as das pessoas que mais amamos, estão completamente ameaçadas, num assalto com sequestro, por exemplo.

Semana passada estive em Santarém e senti, de perto, a dor daqueles bancários e bancárias, e de suas famílias, vítimas de mais um assalto monstruoso, de uma violência desumana. Foram armas na cabeça durante uma noite inteira e depois o matagal, enquanto o assalto ao banco era consumado, no dia seguinte. Ouvi a esposa do Ademar contar, traumatizada, que seu filho de 9 anos estava com medo de ir à escola; e dizia, chorando, para sua mãe: "eles podem me pegar!". Vi a dor na cabeça, na coluna, nas vidas de todos aqueles bancários e bancárias; dores que nascem de um profundo stress, somatizado durante os dias posteriores ao assalto, que tem dia e hora para começar, mas não para terminar. As dores e os traumas não terminam com o assalto. Muitas doenças, sequelas graves, levam dias e meses até serem curadas, quando são.

No dia do assalto em Santarém, pela manhã, enquanto Ademar adentrava a agência acompanhado dos assaltantes, ele tentava manter a calma, avisava a todos que os assaltantes estavam com sua família e pedia tranquilidade. E assim os bancários, colegas de trabalho, fizeram. Foram heroicamente calmos, apesar de todo o desespero.

No dia seguinte, com a nossa presença na agência (estávamos eu e Luciete Baia, de Tucuruí, também diretora da Associação), fizemos uma reunião de resgate da serenidade, da auto-confiança, quando os colegas puderam falar, desabafar, se dar as mãos e apontar caminhos de reconstrução da própria dignidade, da esperança, da vida. Nessa reunião, que contou também com a presença do Zé Maria da Geset, os bancários sugeriram formas terapêuticas de, em grupo, se recuperar do trauma, do medo.

Para os números e as tabelas, Santarém foi apenas mais um assalto na lista. A ele se somou, na segunda-feira, Eldorado dos Carajás, onde assaltaram o Banpará e o Banco da Amazônia. Agora há pouco conversei com uma colega, funcionária da agência Marabá, e que também já foi vítima e sofreu com a violência do assalto em Brejo Grande do Araguia, que me relatou: " ...Eram 10 homens encapuzados, chegaram atirando, pegaram o dinheiro e levaram a Maria Alice, o Bruno e o vigia como reféns. A Marlise, ficou porque se escondeu dentro da agência... " "...Num assalto a primeira coisa que a gente pensa é que vai morrer... " " ...O sentimento que fica é: quando vai acontecer de novo?... " " ...O modo de trabalho que a empresa adota após o assalto, questionando primeiro sobre os valores levados, isto é o pior... "

A vida ameaçada gera dores e medos; e ninguém passa por isso impunemente. Mas, para a maioria, é uma situação de exceção. Para os bancários e bancárias é quase que uma certeza. Um bancário ou bancária convive com o medo permanente e com a sensação de que a qualquer momento a vida pode estar ameaçada. A lida com altas somas em dinheiro, a responsabilidade sobre os altos valores, fazem dos bancários e seus familiares, alvo potencial das quadrilhas que, pelos relatos, planejam minuciosamente os assaltos e sequestros.

Mais uma vez estamos a nos assustar com assaltos, sequestros de colegas e familiares... mais uma vez estamos a reclamar, a questionar sobre a (in)segurança bancária que faz tantas vítimas entre nós... mais uma vez estamos a curar as feridas e, tragicamente, ficamos a aguardar o próximo assalto, orando para que seja menos pior que o anterior. Mas até quando?

Hoje, queria o impossível: que cada amigo e amiga, cada irmão de trabalho, no Banpará e nos demais bancos, se sinta abraçado, protegido. Queria dizer que foi a última vez, mas não posso. Há um trabalho de prevenção sendo feito, mas ele ainda é insuficiente diante do alto nível de planejamento e tecnologia das quadrilhas. Os bancos precisam investir alto em segurança preventiva e em proteção para seus funcionários e clientes e, para isso, tem que pagar, imediatamente, por cada dano, por cada perda que os bancários e clientes sofrem. Só assim irão valorizar mais a vida.

É preciso cuidar de todos e todas que sofrem, direta ou indiretamente, os danos da violência bancária, com atendimento médico e psicológico permanente, até que perdurem os traumas ou doenças, com apoio financeiro específico em caso de necessidade de mudanças de endereço, por exemplo. Sabemos que quando uma quadrilha chega a fazer refém um bancário e sua família, em sua casa, é porque já investigou profundamente a vida daquele colega que, com sua família, está completamente exposto, ainda mais depois do assalto, quando o bancário passa a colaborar com a polícia na busca dos assaltantes.

A AFBEPA tem conhecimento de que tanto o setor de segurança do banco quanto os órgãos da segurança pública tem feito um excelente trabalho, com resultados importantes, no sentido de superar a (in)segurança bancária; mas enquanto as novas e melhores soluções não chegam ou são rapidamente superadas pelas quadrilhas, é dever dos bancos cuidar das vidas. É importante ressaltar que, segundo o art. 2º da CLT, os riscos da atividade econômica, quem assume é a empresa, o empregador; em nosso caso, o banco.

A vida vale mais, a vida vale muito, é tudo, e precisa ser protegida. Urgentemente protegida. Seja ela a batida de um coração, maravilha ou sofrimento, ninguém quer a morte, só saúde e sorte. Eu quero a vida. Nós, bancários e bancárias, queremos a vida e tudo o que nela há; a vida, digna, plena e protegida.

Kátia Furtado.
Belém, 10 de agosto de 2010.


*

Um comentário:

Anônimo disse...

Kátia, que lindo. Me tocou o coração e concordo em tudo com você. Nós queremos viver. Trabalhar, sim, mas viver com alguma paz, pelo menos.
Um abraço,
Alice.